Da masculinidade tóxica à feminilidade envenenada

Lendo a revista Cult deste mês, sobre Cartografias da Masculinidade, me deparei com uma definição simples e direta do psicanalista Pedro Ambra: “A chamada masculinidade frágil ou tóxica é, portanto, aquela que não suporta se olhar no espelho e ver-se diferente de seus ideais. (p.19)

Nesse momento pensei: bem, isso me define em muitas manhãs, me arrumando no espelho… mas pera, foco… voltemos ao artigo.

Que ideal de masculino é esse a ser buscado?

“(…) imaginário masculino: existiu, ou existe, em algum lugar inalcançável, uma virilidade verdadeira, não castrada e sem lei”.(p.18).  Esse ideal refere-se a uma “hegemonia do masculino”, ou seja, a crença de que a única masculinidade possível (e desejada) é de um homem hétero, branco, forte, viril, rico, poderoso, produtivo, isento de sensibilidades e afetividades, que tudo pode a medida que tudo quer e conquista.

Só mesmo um mutante para exemplificar esse ideal hegemônico masculino! Vai Wolverine uuuhhhhh


Como resposta a esse ideal de masculino a ser perseguido (e obviamente nunca encontrado), a Suzana Muszkat entra com dois pés no peito em seu artigo “Revisitando Adão e Eva”. Suzana trabalha com grupos de homens que praticaram (praticam?) violência doméstica (invejo o estômago dela) e traz um ponto importante (ao menos eu sublinhei infinitamente na minha revista):

Respostas violentas de homens em relação às suas companheiras, assim como contra gays, trans e todas as identidades não hetero-normativas, apontam para valores vigentes em nossa cultura, em que o sentimento de humilhação, para muitos, não pode ser admitido como algo do universo masculino. A resposta violenta visa o resgate imaginado da autoestima por meio de uma demonstração de poder sobre a mulher, condição entendida como essencial e natural para a manutenção da virilidade dentro do sistema de valores predominantes em nossa cultura” (p.22)

Suzaninha (já peguei intimidade) continua e me presenteia com um termo lindo: “desamparo identitário”. Que forma mais simples (chique) e concisa de descrever todo um senso de crise existencial, de não pertencimento, de “não-sei-mais-quem-sou” ou “como-deveria-ser”. Ela argumenta que essa explosão de violência contra a mulher, por exemplo, não vem de um lugar de segurança, força e poder de um sobre o outro… pelo contrário! Aparece “(…) em função de um sentimento muito desnorteador de precariedade pessoal, de fracasso, de perda de identidade. Assim, o ato violento visa, de forma efêmera e enganosa evidentemente, recuperar o sentimento de virilidade, definido por qualificadores como força, poder e superioridade, que, por sua vez, são traduzidos como elementos definidores da masculinidade. Trocando em miúdos, alguém cuja única fonte garantidora de autoestima é sua posição de superioridade em relação a um outro precisa acreditar que esse outro tenha menos, ou nenhum valor.”(p. 23)

Eitaporra.

O resultado? Esse ciclo de desamparo-porrada-mais desamparo não termina. Pois o que se entende como antídoto do desamparo e impotência é esse desejo de poder absoluto e: não funciona. Da mesma forma que uma aspirina não resolve uma torção no pé, buscar um ideal de poder absoluto INVENCÍVEL SUPREMO MODAFOCA não resolve um senso de desamparo que é algo natural da condição de existência humana.

Ok, já entendi qual é esse ideal a ser buscado – nunca encontrado – e a resposta violenta decorrente. Voltemos, portanto, a definição do Pedro no início do texto:

“A chamada masculinidade frágil ou tóxica é, portanto, aquela que não suporta se olhar no espelho e ver-se diferente de seus ideais.” (Pedro)

Quando li isso, me propus uma inversão: trocar esse masculino por feminino e ver no que dá.

“A chamada feminilidade frágil ou tóxica é, portanto, aquela que não suporta se olhar no espelho e ver-se diferente de seus ideais.” (Nina)

A mulher que não se identifica com essa frase que atire o primeiro corretivo.

Será que um raciocínio análogo não caberia também à mulher, oprimida por um ideal inalcançável, onde portanto não se reconhece no espelho da realidade?

O ideal de mulher, enquanto branca, magra, cabelos longos e lisos, sem rugas, manchas, estrias, celulites fios brancos e demais marcas da vida, dotada de talentos artísticos e caseiros, ligeiramente (cof) silenciada e sempre muito gentil, casada, disposta, virgem, bela, recatada e do lar é, em alguma dimensão, algo possível?

Virgem, bela, recatada, encontrou o príncipe e ainda levou umas chibatadas do complexo materno dele


Não vemos mulheres explodindo em violência, agressões, mortes por brigas no trânsito, bares ou surrando seus maridos…

Mas vemos diariamente mulheres implodindo de ódio internalizado, detestando seus corpos, suas vidas, seus desejos, se culpando pela própria libido, limitando sua própria voz, praticando terrorismo “alimentar” e, sempre que possível, jogando pedras verbais em outras mulheres quando estas se mostram em sua humanidade e versatilidade de tantos outros femininos possíveis.

Se há uma discussão de possibilidades de masculinidades no plural – e o contrário disso explodindo em violência, venho aqui refletir o quanto isso não reverbera também em nós, mulheres, buscando esse ideal diariamente no espelho e, quando não encontrado, tomamos doses e mais doses de drinks intoxicados por essa busca eterna de dar match nessa mulher hegemônica padrão.

Homens. Mulheres. Somos tão diferentes e tão parecidos. Hermes tinha razão.

Proponho um exercício para nós, mulheres. Sempre que me perceber me julgando por algo natural do meu corpo, da minha personalidade e da minha condição de existência errante na terra, vou me visualizar dando um soco no meio da minha cara, pois, de forma simbólica, o que o homem expressa externamente é o que eu, e tantas outras companheiras, estamos fazendo consigo e com as demais através de palavras. E da mesma forma que não quero esse padrão para o masculino, não quero para o feminino.

Ai Nina, por que não propõe também um exercício para os homens hein hein? Porque estou propondo, nesse momento, curar a minha própria dor. E assim empatizar mais com a dor do outro (já falei que invejo o estômago da Suzana né?) e, por meio do afeto, apontar lugares, propostas, não apenas faltas e erros.

Que, inspirados em Buda, possamos exercitar a díficil lição de aceitar quem somos, como somos, aqui e agora. E ao invés de socos de medo e de ódio, possamos nos abraçar em compaixão e companheirismo. Ainda não sei como fazer a transição, ok? Mas estou na jornada! Compreendendo que mudanças não são geradas por medo e ódio, mas por aceitação… e esse é ooooutro texto.

*****

Se você chegou até aqui, parabéns! Me ajuda a pensar junto? Como aprofundar essas reflexões? O que você acha, como o texto tocou você? Que movimentos são possíveis?

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