Diário de quarentena: coronavírus agita nossa zona de conforto


– Como está sendo a quarentena para você Nina?

– Sei lá.. to ainda me encontrando.

Hoje é o sétimo dia em que estou em casa com meu filho Theo, de 4 anos. Tivemos algumas saídas esporádicas para o mercado e a farmácia que ficam do outro lado da rua. Apesar dessas breves exceções, estamos em casa. Eu, ele e o Lucas Neto.

Há tempos não ficava tão em casa na minha casa. Fiz algumas adaptações para que o pequeno tivesse mais espaço livre para bagunçar, brincar e até “correr”. Fiz adaptações para que a sala comportasse agora um mini setting terapêutico e, nesse exercício de mediar as necessidades da criança e as demandas dos pacientes, começo a desconfiar que os inconscientes deles estão conversando. E não fazendo muita questão que eu esteja nessa prosa.

Parte minha se encontra em cada atendimento, em cada nova ideia criativa para entreter uma criança, em cada meme inútil que me tira risadas e me traz um pouco mais de leveza. Mas parte minha vaga, abstrata, no desejo ainda por demais etéreo de querer fazer mais. Literalmente isolados, reconhecemos nas peles ressecadas de álcool em gel a necessidade fundamental de estarmos conectados, juntos, pensando em, pela e com a comunidade que nos rodeia. Para além do atendimento e da escuta atenta individual, como expandir meu trabalho para um número maior de pessoas que possam se beneficiar com algum tipo de apoio? O consultório ficou pequeno, o mundo é por demais grande. Qual o tamanho do meu abraço?

Volto-me a escrita, linguagem que sempre me trouxe anseio e acolhida. Volto ao site que havia sido abandonado pela expectativa de algo melhor. Quantos projetos bonitos a gente não abandona porque fica preso a promessas de que algo “mais adequado” deveria ser feito e o então “inadequado” não deve ser mantido? Quantos projetos bonitos são abandonados porque você cria insistentemente uma rotina que resolve circunstâncias e urgências, mas deixa aquilo que é importante e trabalhoso em segundo plano?

Esse vírus tem um poder ainda não veiculado como deveria pela mídia. Ele tem a capacidade de nos tirar na base da porrada da nossa zona de des conforto. Nos vira da cabeça para baixo, chuta certezas e paradigmas socioeconômicos, nos olha profundamente na alma e nos joga para dentro das nossas casas. É uma introspecção forçada.

Dentro da(s) minha(s) moradas descobri um espaço vasto, vazio. O vazio é proporcional ao tamanho do potencial nele circunscrito. Às vezes, me perco. Perdida, consigo me perceber. E percebo-me aqui. E, se aqui agora começo a estar, onde estava quando não estava?

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